Fonte: Cosmo
Manifestação reuniu a classe artística da cidade em uma parada de rua: ausência de políticas públicas

Como já previa uma antiga marchinha de Carnaval: “As águas vão rolar”. E elas rolaram na manhã de hoje. Por conta disso, não foi só a chuva que desceu em forma de enxurrada a Rua General Osório, mas também dezenas de representantes da comunidade artística de Campinas, sejam do teatro, dança, música, artes plásticas, cinema, entre outras. Feito as paradas de rua, muito usadas pelos circenses para apresentar as atrações do picadeiro, os manifestantes queriam anunciar outra coisa: o descaso da política pública dedicada às artes.
A concentração do cortejo aconteceu no Centro de Convivência. Enquanto ensaiavam duas paródias de marchinhas de Carnaval, que seriam cantadas durante o manifesto; cartazes e faixas eram preparados. Dizeres como: Chega de Enrolação!, Exigimos Respeito!, Abaixo a Ditadura Cultural, entre outros desabafos, enfatizavam a proposta do encontro. Antes da saída, o ator Moacir Ferraz, integrante do grupo teatral Boa Companhia, leu a carta-manifesto. Em nove itens, os artistas colocaram em xeque a atual posição da Secretaria de Cultura de Campinas.
Entre as principais broncas, estão ausência de políticas públicas continuadas; desamparo a grupos e espaços culturais da cidade; o não pagamento de antigos cachês de artistas; falta de capacitação e formação adequada aos funcionários que lidam com cultura; impossibilidade do agendamento de datas nos teatros da cidade. “Desde o começo da gestão do prefeito Hélio de Oliveira dos Santos, notamos que há um abandono da cultura da cidade. Eles tratam os artistas de Campinas, como os espaços das artes, com muito descaso. É inexistente a política cultural desse governo”, desabafou Dalga Larrondo, pesquisador musical e percussionista.
De acordo com Larrondo, a caldeira de insatisfações foi ano a ano se enchendo e, nesse mês, transbordou. A gota- d’água foi o atraso do depósito da quantia referente às segunda e terceira parcelas do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (Ficc). “Muitos artistas se comprometeram com a grana e, no meio do caminho, ela não veio. Isso compromete muito a produção e entrega dos trabalhos.” Que o diga o sambista Silo Sotil, que teve de paralisar a produção do seu álbum Tem Samba pra Tudo. “Já firmamos alguns compromissos com esse CD, mas fica complicado por conta desse atraso. Não sei o que fazer, se continuo ou paro”, explica Sotil.
Os músicos Nilson Ribeiro e Leandro Gomes estavam no mesmo barco. Estão há meses à espera do cachê de shows que realizaram por meio de projetos artísticos da Prefeitura. O primeiro, referente à turnê do Viola na Praça, em 2007; já o segundo, da temporada do Choro no Bosque. “Não recebemos um tostão. Ligamos inúmeras vezes, viemos à Prefeitura, mas a resposta é sempre a mesma: seu processo está no departamento jurídico. Precisa esperar”, lembra Ribeiro.
A manifestação artística teve como ponto final a Prefeitura. Mesmo debaixo de chuva, os artistas se mantiveram animados, cantando em coro uníssono as paródias de marchinhas como Jardineira e Taí. Nas escadarias do Paço, leram a carta de repúdio.
Os coordenador de Comunicação e o secretário de Cultura: Francisco Lagos e Arthur Achilles, respectivamente, se propuseram a receber cinco representantes, mas o pedido foi negado. Tiche Vianna, diretora teatral do Barracão Teatro, explica: “Não tem como eleger cinco representantes na hora, só em assembleia. Por isso, deixamos claro que a conversa seria após o manifesto porque daria tempo de escolher pessoas que representariam as diversas artes da cidade”, afirma a artista.
Após dar as costas aos manifestantes, enquanto liam o protesto, o diretor de Cultura Vinícius Gratti voltou para receber a carta.
Prefeitura
O coordenador de Comunicação Francisco de Lagos enxerga como motivo principal da manifestação o atraso das parcelas do Ficc. Não tira a razão dos artistas, mas explica o motivo do atraso: “A Prefeitura perdeu na receita desse ano R$ 150 milhões. Por isso, o prefeito tomou a iniciativa de transferir todos os projetos culturais que seriam realizados no primeiro semestre para o segundo. O Ficc está no meio disso tudo. No entanto, espero que em 60 dias as parcelas estejam depositadas na conta dos artistas.”
Quanto ao bate-papo, se coloca à disposição dos manifestantes para ouvir o que eles têm a falar.
